Roberto
Gameiro
Eduardo
Galeano (1940 -2015), jornalista e escritor uruguaio, escreveu no seu livro “O
livro dos abraços” (1): "Na parede de um botequim de Madrid, um cartaz
avisa: Proibido cantar. Na parede do aeroporto do Rio de Janeiro, um aviso
informa: É proibido brincar com os carrinhos porta-bagagem. Ou seja: ainda
existe gente que canta, ainda existe gente que brinca."
Aí
está uma perspicaz observação sobre o comportamento humano e sua reação contra
a rigidez institucional.
Ninguém
colocaria uma placa num espaço público ou privado com os dizeres: “É proibido
caminhar a 100 km por hora nestas dependências”. Isso porque essa ação não é
realizável por um ser humano.
Mas
“cantar” e “brincar” são atitudes e reações naturais dos indivíduos em relação
ao meio social em que vivem.
No
botequim, o cartaz pretende proibir o canto em favor do silêncio, porque o
vinho e demais bebidas “convidam” os comensais a cantar, contagiando a todos os
presentes (ou incomodando muitos).
No
aeroporto, o aviso proíbe brincar com os carrinhos de bagagem, para garantir o
trânsito livre e seguro dos viajantes, porque crianças, pela sua natureza
lúdica, e adultos aborrecidos e agastados, talvez pelo tempo de espera, veem
nos carrinhos uma oportunidade de divertimento e distração.
Nas
duas situações, e em “n” outras equivalentes, trata-se de um embate entre o
caráter “institucional” dos ambientes e a essência humana pulsante que busca o
afeto, a celebração e a brincadeira.
Estão
errados o botequim e o aeroporto ao proibir essas situações?
Sob
o meu olhar, não.
Cada
instituição tem o dever de preservar o bem-estar dos seus usuários em acordo
com suas finalidades estatutárias. Aí, cada uma é uma, ou seja, cada caso tem
suas particularidades e precisa ser avaliado separadamente.
Mas,
o que de mais relevante a frase destacada traz, é a informação de que “ainda
existe gente que canta, ainda existe gente que brinca.".
Cantar
e brincar constituem chamadas à esperança. Na medida em que num mundo cheio de
violência, corrupção, guerras e marcado pela falsidade, crises e cinismo, ainda
houver pessoas brincando e cantando, esse mundo ainda tem salvação.
Gonzaguinha,
na sua canção: "O Que É, O Que É?", nos traz essa esperança:
"Viver
e não ter a vergonha de ser feliz / Cantar e cantar e cantar a beleza de ser um
eterno aprendiz."
Ainda.
REFERÊNCIA
(1)
GALEANO,
Eduardo. O livro dos abraços. Tradução de Eric Nepomuceno. Porto Alegre:
L&PM, 1991.
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